A canção Que País É Este, escrita por Renato Russo (1960-1996) em 1978 no fim do governo de Ernesto Geisel, no ano em que o general da ditadura militar revogou os atos institucionais, preservou seu caráter de urgência quase 10 anos depois quando ela foi oficialmente lançada pela Legião Urbana, em 1987, período o qual o Brasil atravessava uma grave crise política e a superinflação impedia que os trabalhadores tivessem condições razoáveis de tocar a vida.
Para Dado Villa-Lobos, guitarrista, compositor e parceiro de Renato na Legião, a música segue atual em 2026, assim como boa parte da obra da banda de Brasília. Influenciado pelo pós-punk do U2 e Joy Division, o conjunto encapsulou as agruras do País em letras poéticas e mudou o panorama do rock nacional. Faixas como Eduardo e Mônica e Faroeste Caboclo, já enraizadas no imaginário popular brasileiro, até foram transformadas em filmes.
Quase três décadas após a morte do cantor por decorrência de complicações de aids, Villa-Lobos parece preparado para virar a página e dedicar-se plenamente à carreira solo.
Primeiro, porque sua parceria com o baterista e membro fundador Marcelo Bonfá, com quem ele faz shows comemorativos desde 2015, caminha para uma cisão. A dupla “deu um tempo” e vai se reunir apenas em agosto para executar na íntegra o disco Dois (1986) no festival C6 no Rock. Dado, inclusive, lamenta que o imbróglio judicial envolvendo o uso da marca Legião Urbana esteja “empacado”. Os dois ex-integrantes foram autorizados pela 4ª turma do STJ a usar o nome em atividades profissionais. O tribunal negou recurso da empresa Legião Urbana Produções Artísticas, representada pelo filho e herdeiro de Renato Russo, Giuliano Manfredini, que pedia a exclusividade da marca. No entanto, a ministra Isabel Gallotti pediu vista do processo há mais de um ano, e o caso ainda não retornou à pauta de votação.
Segundo, porque o sobrinho-neto de Heitor Villa-Lobos, aos 60 anos, está lançando o seu 4º álbum de estúdio, quase dez anos depois de Exit (2017). Em O Que Você Quiser, que chega ao streaming em 28 de maio, o músico contrapõe a obscuridade da pandemia da covid-19 com momentos solares, demonstrando postura “estoica”. Na faixa Dois Brilhantes, inspirada no nascimento de seus netos gêmeos, há a participação de Tiago Iorc, enquanto a lírica Adeus Bem-vinda traz contribuições de Humberto Gessinger e Herbert Vianna.
Nesta entrevista, Dado falou sobre o novo trabalho, mas também lembrou do passado. Perguntado sobre qual o maior equívoco a respeito de Renato Russo, ele diz que talvez seja achar que ele fosse um cara “supercabeça e supergenial”. O tom iconoclasta não surpreende quem leu Dado Villa-Lobos: Memórias de um Legionário (2015), autobiografia em que o guitarrista afirma sentir saudades do cantor, mas não evita apontar seus “chiliques” e atitudes que classificava como “insuportáveis e egoístas”.
Por motivos de compreensão, clareza e espaço, o conteúdo da conversa abaixo foi editado e condensado.
A banda Legião Urbana, com Dado Villa-Lobos, Renato Russo e Marcelo Bonfá Foto: Tasso Marcelo/Estadão
O nome do álbum é ‘O que você quiser’. Então, o que você quis que esse álbum representasse na sua carreira?
É um conjunto de novas canções. É um grande desafio ter que se mover hoje, com essa questão do mercado, de como você vai se colocar à frente dessa loucura de streamings e de lançamentos semanais, algo que não é muito a minha praia. Eu sou das antigas, então fomos fazendo canções, temas que eu tinha, e trocando ideias com pessoas próximas, tipo o Fausto Fawcett. Havia aquela loucura da pandemia, de resiliência, de determinação. Tudo foi feito ao longo desse momento conturbado, em que tinha um maluco mostrando cloroquina para uma ema, e tinha um general mandando oxigênio para Macapá, ao invés de Manaus. O disco pontua muita coisa daquele momento obscuro, mas também apareceram músicas solares, como Dois Brilhantes, falando sobre bebês, afinal, estou cercado de netos.
Na faixa ‘Monsanto’, uma frase se destaca: ‘Meu coração partiu para o êxtase’. O que é o êxtase para você?
O êxtase é você se livrar dos problemas cotidianos desse mundo conturbado, essa coisa caótica das nossas metrópoles e do Brasil, que é esse abismo que nunca chega [ao fim]. O êxtase é você se livrar disso tudo. Então, de repente, há pouco de estoicismo. O êxtase também é estar com a família e os netos, ter os boletos pagos. Essa música era do Fausto Fawcett e fiz um tema instrumental meio louco para ela. Vi a definição de arte no dicionário e incluí algumas palavras na música, como ‘magia’, ‘enganação’. O êxtase é chegar no caminho onde você procurou chegar.
Pensando na rivalidade simbólica que existia entre as bandas dos anos 80, seria impensável, naquela época, uma parceria com Humberto. O Herbert eu sei que você conhece desde a infância, mas o Humberto não. O que mudou?
Na verdade, com os Engenheiros não havia essa dinâmica de competição, a gente até se cutucava de vez em quando, mas a realidade é que quando eles lançam o primeiro disco deles, Longe Demais das Capitais, eu passei a admirar o Humberto, um cara resiliente que as pessoas massacraram. Com os Paralamas havia uma rivalidade no sentido de que uma banda motivava a outra. Quando saímos de Brasília e chegamos no Rio de Janeiro, toda a galera do Rio, inclusive o Herbert, nos chamava de ‘jacus de Brasília’ (risos).






